Narração na Voz de um lugar inusitado que me deu tantas frustrações, mas que no final me deu um dos momentos mais aguardado. Eu fui aprovada.
É, eu sei que não foi nada fácil.
Podia sentir o seu estomago revirar e a sua mente se dividir em duas, onde uma voltava para o conforto da sua casa e esquecia de tudo enquanto a outra tinha que estar ali, junto a mim, mais uma vez.
É, eu sei não foi nada fácil. Principalmente quando a segunda vez aqui se tornou a terceira, a quarta... É, nós sabemos que foram muitas vezes. Eu até diria que você estava gostando, como uma visita que volta sempre ou quando você vai em um lugar legal e não vê a hora de estar ali novamente (de voltar ali). Eu até diria se a situação fosse mesmo essa. Mas a verdade é que sabemos que não era bem assim. Estar ali, com a sua mente dividida junto a mim não era um ótimo programa. Eu não podia nem te oferecer um café, quem dirá interditar aquele perímetro (é, eu sei que você pensou isso). Isso não é coisa que um quarteirão faça. Não mesmo.
Chuva ou sol. Tráfego intenso ou fraco. Você precisava estar ali. Eu já estava ali. Enquanto você aguardava pacientemente (oops, desculpa) nem tão paciente assim. A verdade é que se você pudesse colocar alguém na sua frente, que fizesse o percurso dela e o seu (e que conseguisse) estava bom demais.
É, eu sei.
Você precisava estar ali, não importava o cansaço mental e o trabalho psicológico que eu estava te dando. Você precisava estar ali.
E você esteve. Em todas essas vezes.
Mesmo que o cansaço e o trabalho mental já tivesse chegado ao seu limite.
Já não dava mais todo aquele desespero e todos aqueles pensamentos negativos que você tão teimosamente tentava afastar. Teimosamente e corajosamente se me permite dizer. Não são todos que persistem. Muitos acabam sendo vencidos pelo mesmo cansaço, trabalho psicológico e os tais pensamentos negativos. Isso sem falar das autos crítica. Elas junto dos pensamentos negativos que sinônimos são seus piores inimigos. Não eu.
Parece que tudo te faz lembrar da sua falha naqueles temíveis dias.
A vizinha que destemida vai pra cima e pra baixo e que você nunca saberá se ela passou por mim. Se ela concluiu o temível percurso. Se foi tão difícil pra ela como foi pra você. Porquê que saber? Parece que eu te dei mais trabalho do que pra qualquer outro.
Mas que saber? Ninguém será tão corajosa quanto você foi de admitir que eu fui um dos seus maiores desafios. Já enfrentados e aqueles que ainda virão.
Porque você conseguiu.
É. Você consegui.
Desistir podia até ser algo que tenha lhe ocorrido, mas que jamais foi considerado.
16 de setembro de 2016.
Você nunca esteve tão preparada.
Esqueça tudo o que você pensou estar das outras vezes, porque essa era diferente. E foi diferente.
Banco. Espelhos. Cinto. Esse era só o começo de todo o trabalho de memória (foi o melhor que achei) cumprido em quase dois dias.
Não parecia ser o suficiente. O dia D estava aí, mais uma vez. Sabemos que foram muitas.
Dessa vez você foi com tudo. Tinha que ter um olho no celular e o outro na sua própria imaginação, pintando o dia que você esperou tão ansiosamente, mas que ainda assim não parecia que ia acontecer. Mas aconteceu.
Eu não podia e não tinha como saber saber, mas na noite anterior você precisou deixar de lado uma série em prol do seu sono. Afinal, você tinha que me encarar na manhã seguinte. Tinha que estar no mínimo descansada, certo?
Certo!
Mas não foi bem assim.
Eu sei que - na verdade eu não sei mas devo saber que a ansiedade anda coladinha principalmente em vésperas de dias que parecem que vão reger a sua vida pra sempre. Isso parece um pouco assustador, mas é bem assim então não queira brigar com a sua ansiedade. Você já passou por ela tantas e tantas vezes, de diferentes formas. Essa era só mais outra.
Em meio ao sono, viradas bruscas na cama você repassava mais uma incansável vez os comandos. Que deveriam estar automáticos. Que já deveriam estar.
Banco. Espelhos. Cinto.
Por que você não fez isso antes? Com certeza teria evitado isso tudo. Teria se visto livre de mim e de tudo aquilo muito antes.
Então o dia D chegou mais uma vez. Dessa vez você não estava com "problemas femininos" que poderiam tornar aquilo tudo tão mais difícil do que já era. Teve que ser adiada. Foi só uma vez, mas rendeu o dia 16 de setembro.
Escuta. Não foi por isso a grande conquista.
Dia 16.
Alguma coisa a declarar?!
Era o dia que tinha que ser. Foi no momento do Cara de lá de cima.
Então o que declarar?!
Talvez se eu te falasse que você precisava deixar os fones de ouvido de lado e dar uma volta em mim fosse o mais certo naquele momento, não é? Do que ficar encostada naquela parede desconfortável debaixo de uma lona nada confiável, sentindo o velho embrulho no estômago e repassando todos os comandos e consequentemente pensando em mim.
Tudo levava a crer que você estava vendo aquele lugar com diferentes olhos. Mas até então isso não parecia concreto. Pessoas que já haviam passado por mim falavam com alguém pelo telefone dizendo que tinha conseguido, e outras ainda sorriam discretamente (mas por dentro estavam eufóricas e o que antes poderiam estar céticas agora tentavam viver aquele tão esperado momento). Você, naquele momento, queria ser elas. Sim, eu até entendo. O receio era muito grande. Em todas as vezes. Mas você precisava estar ali e ponto final.
As coisas pareciam realmente... estranhas (pra não dizer diferente) aquele dia.
Pausa para o café. Você não. Então aguardar inquietamente sem ter a certeza de que essa vez seria diferente.
Mas algo já lhe dizia isso.
O tráfego estava ali, te atrapalhando antes mesmo de você iniciar. A pessoa que assinaria dessa vez uma coisa diferente comparada as outras vezes (mas isso você ainda não sabia, nem eu, confesso) já estava ali, depois da pausa para o café inédita até então. Não posso dizer se impaciente ou não, mas que ele parecia até mais ansioso do que você, aaa isso eu quase tenho certeza.
Viu como as coisas pareciam realmente... estranhas?
Você pediu um momento, tentando manter a tradição e recobrar a calma (recobrar a calma?). Silêncio. Você nunca se lembrará daquele dia com tanta exatidão, sempre existirá uma lacuna aqui e outra ali, mas acho que o essencial permanecerá consigo para sempre.
Banco. Espelhos. Cinto. Para começar.
E então você foi. Mesmo com a localização não muito a teu favor. Com os comandos transitando imperceptivelmente.
E você percorreu em mim mais uma vez e aquela foi a última. Logo após a seta para estacionar (neutro + freio de mãos, desligar) você concluiu uma das etapas que pareciam impossíveis de serem concluídas. Até então parecia que todos conseguiam, mas você não. Mas aquele dia e tudo o que você fez para chegar nele mostrou o contrário. Depois de quase ser expulsa você foi pra galera. Yay!
Não sei se o teu medo era só de mim. Okay, sei que não era, mas a verdade é que você teve que se superar. Você foi o seu próprio desafio e você conseguiu. O seu sorriso escancarado demonstrava isso e o seu pulo discreto de alegria também.
Não dava pra acreditar não é mesmo?
Vibrante. Você estava agradecida por nunca mais ter que passar por mim, pelo menos nãos na situação em que você se encontrava em todos os nossos encontros.
What next?
Só você pode dizer.
Se ficou confuso ou não, esse é o temível quarteirão narrando uma coisa que para mim foi divertido escrever.
Quis fazer uma coisa diferente, talvez um pouco dramática, mas verdadeira. Eu realmente passei por um período difícil. Todos que estavam ali tinham os mesmos objetivos que se desviariam depois de concluído. E dessa vez, como das outras, alguns conseguiram e eu estava incluída nesse grupo seleto.
Foi difícil. Mas dessa vez, sem dúvida, eu me esforcei. Eu me dediquei mesmo achando que talvez não fosse o suficiente. Mas eu precisava deixar de ser boba. Ficar remoendo o que já tinha acontecido podia até ajudar e eu tinha que me dedicar a isso.
E o resultado tão esperado, mas que parecia impossível de ser alcançado veio. Daquela vez eu estava mesmo preparada. Mesmo que o sentimento fosse outro eu já podia ver a diferença.
"As coisas não estão saindo como eu planejei - a verdade é que elas nunca saem pra ninguém. Eu contava que a minha habilitação sairia rapidinho. Mas foram tantas provas que mesmo que eu não queria faz com a minha cabeça entre em um turbilhão... eu fico bitolada mesmo, com medo de pagar mais uma vez, achando que eu não vou conseguir, e que o tempo vai se esgotar e aí eu não vou saber o que fazer.
Não sei se já deu pra perceber, mas eu sou bastante impulsiva rs. Até então eu quis fazer as coisas com calma pra poder iniciar tudo o que intercâmbio precisa (como a carta de mot.), mas isso não me impede de pensar nos "e se...". É, eu tô ficando louquinha com isso. Tem algumas questões que eu não quis levar "a sério" porque eu sinceramente não achei pertinente, porque não era algo que eu queria, que eu sentia no meu coração tanto quanto fazer esse intercâmbio. Mas agora elas (as questões) estão vindo com tudo e eu não consigo evitar. É aqui que que entra mais bitolação."
Esse era o tamanho do meu desespero, depois de tantas frustrações.
Um peso foi tirado das minhas costas. Mas para quem pensa que acabou por aí, as coisas só estão começando, eu só precisava dar essa etapa como concluída. Ainda tenho um longo ano pela frente, e novos obstáculos são dispostos a mim a todo instante. Desistir? Jamais. Isso tudo só vai me empurrar lá para a frente com o pai sempre a me guiar.